A vida e o legado de Avicii: Música intemporal tingida de tragédia

A vida e o legado de Avicii: Música intemporal tingida de tragédia

A morte do DJ e produtor sueco Avicii – nome verdadeiro Tim Bergling – aos 28 anos em Muscat, Omã na sexta-feira (20) de abril deixou uma base mundial de fãs lutando para lidar com a perda de um dos desbravadores mais brilhantes da música eletrônica.

Os contemporâneos foram rápidos ao canonizar o nativo de Estocolmo. Skrillex saudou Avicii como: “verdadeiramente um gênio, um inovador, sensível e humilde”. “O melhor de nossa geração”, reiterou Diplo. Já Kygo, “se despediu de sua maior inspiração e a razão pela qual ele começou a produzir música eletrônica”, horas antes de homenagear o amigo com um de seus maiores sucessos “Without You”, no palco do Coachella.

A influência de Avicii se estendeu muito além da música eletrônica. A banda Imagine Dragons ligou Bergling “a um de seus momentos colaborativos favoritos”. Enquanto Charlie Puth se refere a Avicii como “o homem que abriu meus olhos para como minhas produções poderiam um dia parecer”.

A música eletrônica é um gênero relativamente novo e muitos de seus arquitetos ainda estão vivos. Mas, seus fãs milenares não estão acostumados a enterrar seus ídolos tão cedo. Tim Bergling pode ter superado o proverbial “Clube dos 27” em pouco mais de cinco meses, mas ele continua sendo a principal entrada da música eletrônica no panteão das estrelas tragicamente extinguidas cedo de mais.

De muitas maneiras, a ascensão de Avicii foi emblemática para o modelo moderno de artista deste gênero. Ao contrário das gerações anteriores de DJs, Bergling começou como ‘produtor de quarto’ e rapidamente construiu uma audiência online que o levou a sua primeira aprestação ao vivo, forçado pela demanda de uma turnê. Aos 18 anos, ele conheceu Arash “Ash” Pournouri, que se tornaria então seu agente de longa data e uma força determinante em sua carreira. “Meu nível de ambição era torná-lo não um DJ ou um produtor, mas um artista”, lembra Pournouri no documentário da Netflix, Avicii: True Stories.

Tim Bergling, Avicii, fotografado em seu estúdio em Estocolmo, Suécia em 26 de Maio de 2011.

Tim Bergling, Avicii, em seu estúdio em Estocolmo na Suécia em maio de 2011. Lars Pehrson/TT/Sipa USA

Lançado sob o apelido de Tim Berg em outubro de 2010, o single “Seek Bromance” colocou Bergling no mapa, liderando as principais paradas músicas ao redor do mundo. O lançamento imaculadamente produzido combinou melodias exuberantes e colocou a cena em alerta, havia algo especial neste jovem sueco. “Você me fez querer tentar fazer música eletrônica quando ouvi “Seek Bromance” pela primeira vez”, lembrou Diplo no Instagram.

Lançamentos posteriores como “Fade Into Darkness” e “Blessed” colocaram a mostra a sensibilidade de Bergling e cimentaram sua posição como um estrela em ascensão. Mas a introdução de muitos fãs do Avicii veio através de “Levels”. Inescapável nos festivais, “Levels” foi capaz de canalizar a euforia em progressão dos acordes iconicamente e instantaneamente inconfundíveis. Ainda durante o Coachella, Nile Rodgers comentou ao Los Angeles Times que, “com equipamento e ouvido, ele se tornou um dos melhores compositores que já conheci”.

Vencida sua segunda indicação ao Grammy de Melhor Gravação de Música Eletrônica por “Levels”, sua carreira nunca mais seria a mesma. A carreira de Avicii se elevou a novos patamares. Em 2012, Bergling ocupava os lugares mais cobiçados da cena na primeira linha de festivais como Coachella, Lollapalooza, Ultra onde se apresentou ao lado de Madonna no Palco Principal. Sua turnê “Le7els” ainda em 2012, descrita por Paul Tollet do Golden Voice, “abrimos a primeira arena para a primeira turnê de um artista de música eletrônica”, em locais como a American Airlines Arena em Miami. Naquele mês de setembro, Avicii se tornou o primeiro artista do gênero a tocar no famoso Radio City Music Hall em duas apresentações históricas na cidade de Nova Iorque.

Tim Blergling, Avicii, durante performance no Ultra Music Festival em 2013 ao lado de Madonna. Jason Nevader/WireImage

Avicii poderia ter sido perdoado por escolher seguir o curso, mas ele nunca se esquivou de assumir riscos estilísticos numa época em que muitos de seus colegas preferiram hesitar. Bergling enfrentou uma tonelada de críticas após sua performance no Ultra em 2013 acerca da apresentação do material inédito de “True”. Uma carta aberta foi divulgada por Avicii dias depois. Sem se desculpar ele reiterou: “este álbum é sobre experimentação e as infinitas possibilidades da música eletrônica…as pessoas logo verão do que se trata”.

A forte estreia comercial de “True” na quinta posição, justificou seu sentimento, e colocou três faixas de seu novo material no topo dos principais rankings musicais no mundo. “Wake Me Up” que fundia magistralmente elementos do eletrônico, do folk, do country abriu caminhos e liderou a mudança de carreira de Avicii para o sucesso. A faixa é até hoje a mais ‘shazamed’ procurada no Shazam na história. “Quando a música saiu ele parecia o cara mais inteligente no mundo, tudo fazia sentido”, Kaskade lembrou durante um tributo ao vivo ao astro na SiriusXM.

O triunfo de “True” também o transformou em um dos principais e mais procurados produtores para o pop. Em 2014, Bergling co-produziu três faixas para o álbum ‘Rebel Hearts’ da Madonna, bem como o single indicado ao Grammy, “Sky Full Of Stars” da banda Coldplay. “Acho que ele não fez muito pela música eletrônica”, disse Andy Sherman do Shermanology. “Acho que ele fez muito pela música pop”, completou.

Para o mundo exterior Avicii parecia estar em uma trajetória inexorável até o topo. O mais novo hitmaker em ascensão em uma cena que fetichiza os jovens e quem tem sede por possibilidades. Mas a realização de até 250 shows por ano prejudicou a saúde e Bergling. Diagnosticado com pancreatite aguda, em parte, devido ao consumo excessivo de álcool, ele foi forçado a cancelar uma série de shows em 2014 para a remoção de sua vesícula biliar e apêndice. De volta, em 2015 ele cancelou todas as apresentação restantes de sua turnê um mês antes do lançamento de seu segundo álbum, “Stories”, no outono. O álbum não coincidiu com os números alcançados por seu material de estreia mas ainda conseguiu um sucesso, “Waiting For Love”.

As ‘True Stories’ de Avicii, pintaram um retrato angustiante de sua luta contra a ansiedade em torno da turnê daquele período. Um cenário particularmente assustador encontra Bergling acerca da resistência de sua administração e agência por cancelamentos anteriores. “Eu disse a eles: não vou poder mais tocar. Eu já disse que vou morrer. E eu já disse isso várias vezes”.

O afastamento de Avicii da turnê em março de 2016 chocou o mundo, mas poucos acreditavam que ele nunca mais voltaria aos palcos. Ele parecia relutantemente reconhecer isso na carta aberta divulgada para os fãs, “uma parte de mim nunca poderá dizer nunca, eu poderia voltar um dia…mas não vou”, desabafou.

Mas é claro que Bergling sempre se sentiu mais confortável no estúdio do que sendo o centro das atenções. “Um cara talentoso que não estava preparado para grandes plateias”, disse Nicky Romero. “Ele era o único que queria fazer música mas que não queria estar no palco o tempo todo”, completou.

“Para mim, era algo que eu tinha que fazer pela minha saúde”, disse Avicii ao The Hollywood Reporter sobre sua decisão em abril de 2016. “A cena não era para mim. Não foram os shows e nem a música. O que estava em volta nunca veio naturalmente até mim. Sou uma pessoa introvertida no geral, e todas as partes de ser um artista foi muito difícil para mim. Aceitei muita energia negativa, eu acho”.

Depois de anos sob os olhos do público, a primeira coisa que o jovem aposentado fez foi sair da grade, abandonando seu celular para viajar pela África por três meses. Em dezembro de 2016, Avicii se separou do Pournouri enquanto continuava a trabalhar em novas músicas.

Em agosto de 2017, Bergling lançou Avīci (01), o primeiro de três EPs que comporiam seu terceiro álbum, apresentando colaborações com Rita Ora, Aluna George, Sandro Cavazza, Billy Raffoul e Vargas & Lagola. Avīci (01) acumulou críticas positivas, com os ouvintes saudando seu retorno e suas marcas melódicas. “Este é o primeiro ano em que eu senti que poderia viver normalmente pela primeira vez em oito anos ou algo assim”, disse Bergling à BBC Radio 1 e ao DJ Pete Tong após o lançamento.

Os colaboradores estavam entusiasmados com a ética de trabalho da Avicii enquanto os contemporâneos sussurravam sobre a alta qualidade de seu novo material inédito. Parecia que Bergling havia finalmente alcançado um ponto crucial de sua carreira, o que tornou as noticias daquela sexta-feira particularmente devastadoras. “Todos pensaram que ele estava em um lugar melhor, especialmente nos últimos dois meses”, disse Romero. “Foi um choque para todos, porque parecia que ele estava pegando, fazendo música, e de novo em estúdio”.

Após a notícia, Neil Jacobson, presidente da Geffen Records e Avicii A & R de longa data, disse à Variety que Bergling estava trabalhando em “sua melhor música em anos”. Jacobson diz: “Ele estava tão inspirado. Ele estava tão empolgado. Tínhamos que colocar o tempo do fim nas sessões porque Tim só trabalhava por 16 horas seguidas, o que era de sua natureza. Você tinha que puxá-lo para fora como, “Tim, vamos lá. Vá para a cama. Descanse!”.

“Como um ícone da música eletrônica, ele tocou a vida de milhões de pessoas ao redor do mundo e quebrou barreiras entre gêneros como o eletrônico e o country”, disse Pasquale Rotella, fundador da Insomniac e Electric Daisy Carnival. “Ele ajudou a nossa cultura a causar um impacto no meio principal que nunca será esquecido”.

Apesar do impacto que a cena teve sobre ele, a perspectiva de Avicii sobre a música eletrônica permaneceu otimista até o final. Mesmo quando ele se afastou dos olhos do público, ele permaneceu comprometido em empurrar o gênero para frente e seguir derrubando barreiras.

“A música ainda está crescendo, ainda está evoluindo”, disse ele ao The Hollywood Reporter. “É por isso que, de certa forma, tive que tomar a decisão que tomei. Porque eu não sinto que a EDM vai parar”.

Texto traduzido e adaptado para a Língua Portuguesa através da Billboard. Reportagem adicional de Dave Brooks e Dave Rishty.