Sem papas, DJ Marky fala sobre sua carreira, anos 80, novos DJs e Netsky

Sem papas, DJ Marky fala sobre sua carreira, anos 80, novos DJs e Netsky

Marco Antônio da Silva, conhecido também pelo seu nome artístico DJ Marky, é o rei do Drum and Bassque coleciona elogios no mundo todo. Defensor da profissão de Disc Jokey, prefere tocar com discos de vinil, pois vê neles uma magia que nenhuma outra forma de mídia possui. Sempre em turnê, o brasileiro têm shows esgotados com meses de antecedência. Ele toca pra gente lá de fora e já se acostumou com a ideia de não ser tão popular no Brasil.

Você é um dos poucos astros da indústria que ainda usa o termo “DJ” no nome. Existe algum motivo especial para isso?

Tinha um promoter, o Luana Malu Cat, que sempre gostava de botar apelidos nos DJs. E lembro uma vez que ele veio me pedir para tocar uma faixa do Marky Mark and the Funky Bunch, e eu odiava aquela música. Não queria tocar de jeito nenhum e de tanto ele me pedir, começou a me chamar de Marky Mark. Até então, todo mundo me chamava de Marquinhos, aí começaram a chamar por Marky Mark. Eu não gostava, mas deixava para lá. O patife levou um VHS meu, do Edo (ainda trabalham juntos) e Oliver. Quando me viu tocando, ele ficou louco porque nunca tinha visto nada igual e falou “Você tem que vir para Londres. Você vai tocar aqui. Vai ser DJ número 1”, mas a única coisa que eu não queria era usar esse nome, e ele falou “o que você acha de DJ Mark”, “perfeito!”.

Em um paralelo, como você pode diferenciar o Marky dos anos 80, jogando-se num mundo desconhecido, tentando viver a vida com um DJ; e o Marky de hoje, um cara consagrado na cena do Drum and Bass?

No final dos anos 80 eu era uma mera criança, mas eu sempre tive sonhos, tinha o sonho de ser músico porque o meu pai tocava instrumentos, mas nem sei tocar. E lembro quando um amigo me chamou e falou: “Sei que você tem um monte de discos, que coleciona…”, sempre fui fascinado por LPs, ele tinha dois toca-discos que nem eram Technics (MK1200). Quando me mostrou, não sabia o que fazer e pedi para tentar. Sempre tive uma relação muito grande com a música, então sei todas as passagens, sei onde o cara vai parar de cantar e onde tem um breakdown. Então acabei fazendo isso e o cara falou “É assim mesmo que se faz. Como você sabe?” e eu falei “não sei”, e essa é uma pergunta que me faço até hoje.

Antes a dificuldade de você conseguir as coisas, como os discos e toca-disco eram maiores. Então não era qualquer um que tinha, e acho que nunca se esperava que a profissão de DJ ia ter a dimensão de hoje. Que no meu ponto de vista, ficou meio banalizada. Porque quando comecei a tocar, minha intenção não era o meu cofre de dinheiro, mas ganhar o respeito dos meus heróis, os DJs que sempre vi tocar e que admirava. Hoje não é assim. Os DJs eram quem levavam os lançamentos para as rádios e para as pistas de dança. Nós criávamos os hits, não a rádio ou empresários. Hoje em dia, está difícil contratar um DJ que leve cultura para as pessoas, ao mesmo tempo, o contratante não quer isso. Ele não contrata você pelo talento, ele contrata você pelo número de seguidores que tem no Facebook ou Instagram.

Se fosse abrir um curso sobre música eletrônica, não de produtor ou DJ, mas sobre a teoria da música em todas as suas formas, o que você ensinaria?

Numero 1, eu falava para todo mundo: Pode ir embora. Não vão buscar MP3, vão comprar discos. Porque o negócio é o seguinte, muitas músicas incríveis jamais irão converter para MP3. As gravadoras não vão passar, o catalogo é gigantesco. Vai morrer e a gente não vai escutar toda a música que tem no mundo. Eu sou totalmente influenciado por Funk, Jazz, Soul e música brasileira. Não tenho influencia de EDM nenhuma. Cresci tendo na minha casa um disco do Marvin Gaye. Muitas pessoas não se preocupam com o passado, sendo que o passado têm coisas muito importantes que a gente pode unir elementos e produzir coisas novas. Acho que por isso a minha música com Xerxes, de onde a gente tirou um trecho da musica do Toquinho com Jorge Ben, foi #10 na Billboard. Isso se chama conhecimento. Se você não for atrás de conhecimento, você vai ficar tocando qualquer coisa. Será que daqui 20 anos vão tocar a música do Calvin Harris? Vai ser um clássico e vai cair a casa? A gente não tem mais clássicos. Por exemplo, você tem uma música, estoura, passa 4 meses e acabou. O maior exemplo é do Daft Punk com “Get Lucky”, fizeram um imenso buzz em cima dessa música, e agora? Cadê o álbum? Morreu. Um disco lançado dois anos atrás. Aí eu estou numa festa e toco James Brown, a mais underground, e todo mundo dança. Uma música de 40 anos atrás.

Sobre o seu último álbum, My Heroes, o título é uma homenagem aos seus pais?

Eu já tinha a ideia de fazer um disco para os meus pais. Aí meu pai faleceu 3 anos atrás e foi o momento que falei “acho que agora é a hora”. Acabei fazendo as seis primeiras faixas. Já tinha, mais ou menos a base do que eu queria, fui colocando em prática e saiu. Tanto que não tive dificuldade nenhuma para fazer as musicas. Vários amigos meus me ajudaram, e o resultado vem sendo maravilhoso. Com o disco esgotado, ando fazendo shows no mundo inteiro.

Nestky fez uma produção inspirado no nosso samba e ainda chamou de “RIO”. Vocês conversaram sobre essa música? Ele te pediu alguma dica?

Quando ele (Netsky) estave aqui no Tomorrowland, me chamou e disse que precisava mostrar uma música urgentemente, que era “meio pop, mas legal”. A faixa tem algo que funciona, que eu posso fazer com que pessoas que não gostem de Drum and Bass começarem a gostar. Tem um apelo meio comercial, mas é um comercial decente. Ele falou “eu fiz essa musica para você”, só que ele achou que eu morava no Rio e não é bem isso.


  • AB73

    Eu ainda gostaria de ver algum DJ tocando Octave One – Black Water em alguma balada.