Review: Calvin Harris aposenta a EDM e explora novos ares em “Funk Wav Bounces Vol. 1”

Review: Calvin Harris aposenta a EDM e explora novos ares em “Funk Wav Bounces Vol. 1”

Estamos acostumados a sempre ver mais do mesmo. Na música, por exemplo, é comum ouvir uma que lembre outra. E isso acontece com faixas até do mesmo artista. Com os produtores/DJs, o público acaba se condicionando a um estilo bem específico, o que é motivo de elogios e críticas.

O britânico Adam Richard Wiles — mais conhecido como Calvin Harris, lançou seu novo álbum agora, em 30 dia de junho. E, diferente do que se esperava, o produtor saiu de sua zona de conforto, buscando uma nova sonoridade, evitando fazer mais do mesmo.

Até o ano passado, com os lançamentos dos singles “This Is What You Came For” — com colaboração da Rihanna — e “My Way”, Calvin seguia uma sonoridade mais parecida de seus últimos álbuns Motion (2014) e 18 Months (2012), com influências de electro e progressive house.

Capa oficial.

Agora, com o recém lançado Funk Wav Bounces Vol. 1, Harris nos apresentou toda sua versatilidade, com um álbum baseado no funk (calma, não é funk carioca, e sim o gênero musical que se originou nos Estados Unidos durante a década de 60) e pós-disco. Sem esquecer do forte time de colaboradores, tendo Pharrell Williams, Katy Perry, Nicki Minaj, Frank Ocean, Ariana Grande, entre outros.

Ainda sobre os colaboradores, pode-se perceber que a tendência de trazer rappers para a música eletrônica está cada vez mais forte neste ano de 2017. No álbum, por exemplo, deparamos com nomes como Big Sean, Migos, Snopp Dogg, Future e outros.


FAIXA POR FAIXA

01. Slide (feat. Frank Ocean e Migos)

Com um total de 10 faixas na tracklist — como o próprio Calvin Harris já havia anunciado no começo do ano — o álbum teve “Slide” como carro-chefe. Resultado de uma parceria com o cantor Frank Ocean e o trio Migos.

Lançada em 23 de fevereiro, a canção dividiu opiniões. Afinal, parte do público estava esperando uma música para pistas, a tal da farofa, com letras curtas e drops repetitivos. Mas com “Slide”, Calvin conseguiu antecipar as mudanças que estariam por vir em seu novo disco. Com músicas mais simples e menos eletrônicas.

A faixa tem uma pegada bem tropical, assim como outras presentes no álbum. Por ser uma das mais radiofônicas/comerciais, a escolha de primeiro single não foi atoa. Não podendo deixar de destacar a voz do Frank Ocean, que casou perfeitamente com o instrumental. Tendo ainda a parte do trio Migos, formado pelos rappers Quavo, Takeoff e Offset.

02. Cash Out (feat. ScHoolboy Q, PARTYNEXTDOOR & D.R.A.M)

Como dito acima, o número de rappers colaborando na música eletrônica está cada vez maior. Em Funk Wav Bounces Vol. 1, é o que mais rola. Só na segunda faixa do álbum, “Cash Out”, temos participação de três, são eles: ScHoolboy Q, PARTYNEXTDOOR & D.R.A.M.

Com uma fórmula similar a de “Slide”, “Cash Out” não é de impressionar tanto como a primeira. Mas, não é porque o impacto é menor que a faixa é ruim. Não. A faixa é muito boa, por sinal. Ela cresce de forma gradativa, mas não há um ápice grandioso.

03. Heatstroke (feat. Young Thug, Pharrell Williams & Ariana Grande)

Tá aí. Outra faixa que dividiu muita opinião no começo. O que acontece… mais uma vez se esperava uma farofa, afinal, a produção foi anunciada com colaboração de Pharrell Williams e Ariana Grande, além do rapper Young Thug. Mas Calvin seguiu essa linha conceitual, apostando em músicas menos eletrônicas, sendo essa uma das principais características do álbum.

Com uso de piano, piano elétrico, 1965 Fender Stratocaster, sintetizadores, flexitone e outras ferramentas, o resultado de “Heatstroke” é uma música quente e fresca como o verão. De primeira você pode não se acostumar, mas na terceira vez em diante, aí já era, o vício é certo.

A participação maior acaba sendo do Pharrell Williams e Young Thug, explorando pouco dos vocais da Ariana Grande. Mas, de qualquer forma, o resultado ainda é muito bom.

04. Rollin (feat. Future & Khalid)

Para fortalecer a divulgação, antes mesmo do lançamento do álbum, Calvin liberou faixa “Rollin” como terceiro single promocional, tendo colaboração de Future e Khalid.

E, de acordo com os números, entende-se que a faixa foi melhor recebida que a antecessora “Heatstroke”. Para se ter ideia, no Spotify, “Rollin” já ultrapassou as execuções — lembrando que o intervalo do lançamento entre as músicas é de 1 mês e alguns dias.

De forma geral, “Rollin” é uma faixa boa, não é a mais contagiante, nem dançante e nem a mais lenta. É uma música para se ouvir e apreciar.

05. Prayers Up (feat. Travis Scott & A-Trak)

Mantendo a identidade sonora presente em Funk Wav Bounces Vol. 1, “Prayers Up” é uma das faixas que mais chamam atenção. Tem auto tune na voz do Travis Scott? Tem sim — E daí? Alias, nas outras músicas também — Tem produção do A-Trak? Tem também. Mas, diferente de outras, esta te faz querer dançar, te envolve mesmo sem vontade.

Tentar identificar o que foi produzido pelo Calvin ou A-trak acaba se tornando uma missão bem difícil, uma vez que, a faixa está bem similar com as outras apresentadas no material. Os vocais do Travis, associados com o instrumental, resultou em um som completamente viciante, ainda mais com aquele piano digital de fundo, bem retrô.

06. Holiday (feat. Snoop Dogg, John Legend & Takeoff)

Difícil explicar, mas “Holiday”, em seus primeiros segundos, tem um ar místico e nostálgico, e a voz do Snoop Dogg contribui muito pra isso. Outro detalhe é, a faixa é a mais curta do álbum, com 2 minutos e 50 segundos de duração, não dando tempo nem de piscar os olhos direito.

Ainda há colaborações do cantor John Legend e do rapper Takeoff. Não é aquela música forte para ser escalada como single, mas não é apenas uma música de encher álbum.

O problema de fazer uma análises dessas é que a gente, querendo ou não, acaba voltando ao pensamento deste disco como algo da EDM, coisa que ele definitivamente não é. Estamos acostumados com o Calvin de “We Found Love”, “Summer” e “Blame”.

Mas de forma geral, analisando a música em si, “Holiday” é muito boa, ao ponto de querer ouvir de novo e de novo.

07. Skrt On Me (feat. Nicki Minaj)

Lembra que falamos de auto tune? Nesta faixa tem de sobra. Mas ok, o mundo vai continuar girando normalmente.

“Skrt On Me” tem uma pegada meio “One Dance” do Drake, meio “Work” da Rihanna, sendo a mais dançante/rebolativa. Tendo ainda colaborações nos vocais da Nicki Minaj, que tanto canta, quanto faz suas rimas em determinado momento da música.

A faixa é uma aposta para próximos singles, até pelo fato de ser uma das mais fortes e radiofônicas presentes no álbum.

Talvez sim, talvez não. Mas, em alguns momentos de “Skrt On Me”, há um grito de fundo que muito se assemelha com o da Carona, em “Rhythm of the Night”. (clique nos nomes das músicas para conferir o momento exato)

08. Feels (feat. Pharrell Williams, Katy Perry & Big Sean)

“Feels” é o quarto single extraído do Funk Wav Bounces Vol. 1, mas o primeiro a ter um videoclipe divulgado. A faixa tem — mais uma vez — colaboração de Pharrell Williams, e também da cantora Katy Perry e o rapper Big Sean.

Com uma pegada de reggae, “Feels” entra para o seleto time de faixas agitadas presentes no álbum. Mas não é um agito de “fritar”, é um agito de sacudir a cintura pro lado e pro outro, de deixar a música guiar os passos, sabe?

Ter os vocais do Pharrell faz toda diferença em uma música. Ainda mais quando nesta mesma produção tem Katy Perry — embora pouco explorada, assim como a Ariana — e o Big Sean.

09. Faking It (feat. Kehlani & Lil Yachty)

Pensa num pancadão… Pensou? Ainda não foi dessa vez, mas “Faking It” chega quase lá. Com colaboração da cantora Kehlani e do rapper Lil Yachty, a faixa é a nona presente no álbum.

Não é uma canção com cara de single, mas vale ouvir cada segundo. Tanto pelos vocais, quanto pelo instrumental. Afinal, Calvin foi muito feliz nessas produções, um verdadeiro presente para quem curte apreciar música bem produzida.

10. Hard to Love (feat. Jessie Reyez)

E por fim, a última faixa do álbum. Amém.

“Hard Love” é uma falsa balada. Você pensa que vai ficar ali, só na guitarra, eis que a música começa a crescer. E os vocais marcantes da cantora canadense Jessie Reyez casam perfeitamente com todo o conjunto.


A ordem das músicas na tracklist foi bastante inteligente. Alternando entre produções mais fortes e outras nem tanto, segurando o ouvinte até a último segundo. Outro fato interessante é, por ter 10 faixas, o álbum se torna gostoso de ouvir, não sendo algo cansativo nem torturante. No total, o Funk Wav Bounces Vol. 1 tem aproximadamente 37 minutos de duração.

Com essências do funk, o álbum é quente, é tropical. E Calvin se mostrou disposto a explorar por coisas novas, não se acomodando em apresentar mais do mesmo. E o fato dele estar buscando fazer músicas mais “naturais” em uma era eletrônica, já é motivo suficiente para reparar esse trabalho com outros olhos.

Já fazendo algumas previsões… Como o próprio título do álbum já diz, entende-se que este é o Volume 1, e que outros estão por vir. Comparando com a informação de que neste ano ele estaria lançando apenas 10 músicas, será que o sucessor chegará em 2018? E melhor, será que vai ter a tão falada parceria com Beyoncé? Muitas perguntas para poucas respostas, então vamos aguardar por mais novidades…

E vocês, o que acharam do Funk Wav Bounces Vol. 1?

Funk Wav Bounces Vol. 1
Conclusão
A ousadia do Calvin Harris ao sair de sua zona de conforto fez do "Funk Wav Bounces Vol. 1" um dos seus trabalhos mais admiráveis. Um ótimo álbum para quem gosta de música boa e bem produzida.
Produção9.3
Diversidade8.5
Originalidade8.6
Impacto6.3
Positivo
Músicas intuitivas
Colaborações de peso
Álbum bem construído
Negativo
Colaborações pouco exploradas
Pouco impacto
8.2