Ícones em Movimento: O Retorno Sombrio do Massive Attack e a Celebração Histórica do Goo Goo Dolls
A indústria musical frequentemente opera em ciclos de inovação e nostalgia, e os lançamentos recentes de dois gigantes dos anos 90 ilustram perfeitamente essa dinâmica. De um lado, o Massive Attack quebra um longo silêncio com uma obra densa e politizada. Do outro, o Goo Goo Dolls revisita um de seus maiores triunfos comerciais, oferecendo aos fãs um novo olhar sobre um clássico inesquecível.
Um Hino Obscuro para os Tempos Atuais
Mesmo para os padrões de um grupo conhecido por não ter pressa alguma em estúdio, o ritmo de lançamentos do Massive Attack vinha se reduzindo a quase nada nos últimos anos. A banda raramente deixou as manchetes, é verdade. O motivo, no entanto, passava longe da música e se concentrava no ativismo político de seus membros. O vocalista Robert Del Naja, por exemplo, esteve entre as 500 pessoas detidas recentemente durante um protesto da Palestine Action.
Já se passaram seis anos desde que o grupo compartilhou qualquer material sonoro inédito, um período marcado por uma série de vídeos no YouTube onde a música servia apenas como pano de fundo para manifestos sobre mudanças sistêmicas globais. Para encontrar um single tradicional que o público pudesse de fato comprar, é preciso voltar uma década inteira, até o lançamento de The Spoils. O distanciamento fica ainda mais evidente ao lembrarmos de Heligoland, o álbum mais recente do grupo, lançado em 2010. Para se ter uma ideia da passagem do tempo, naquela época Taylor Swift ainda se dedicava à música country, Harry Styles estava na escola, e gigantes como Instagram e TikTok sequer existiam.
Qualquer novidade vinda do Massive Attack carrega um peso natural de evento histórico. Quem acompanhou a revolução musical dos anos 90 sabe o impacto que a banda causou. O disco de estreia, Blue Lines, pode ser facilmente defendido como o álbum britânico mais influente de sua geração por ter criado um subgênero inteiro: o trip-hop. Três décadas e meia depois, seus ecos sobrevivem no pop mainstream de Billie Eilish e Lana Del Rey, no neo-soul de nomes como Joy Crookes, e até mesmo naquelas infinitas playlists de “lo-fi beats” que acumulam milhões de reproduções no Spotify.
A sonoridade atual do grupo, porém, distanciou-se bastante daquela fase inicial. Desde o final dos anos 90, especialmente quando Del Naja assume o controle criativo no lugar de Grant Marshall, o som tornou-se cada vez mais obscuro, inquietante e abstrato, bebendo muito mais no experimentalismo afiado do pós-punk do que no hip-hop. O novo single, Boots on the Ground, consolida exatamente essa atmosfera.
A faixa de sete minutos conta com a participação do lendário Tom Waits e vem acompanhada de um videoclipe montado com imagens do fotógrafo documental conhecido no Instagram como thefinaleye. O material visual é pesado, expondo protestos do movimento Black Lives Matter, a repressão policial, batidas da imigração e o drama de veteranos de guerra em situação de rua. Quase três minutos da música são dominados por uma introdução e um encerramento profundamente desconcertantes, construídos apenas com o som da respiração ofegante e cansada de Waits. Há ainda uma pausa de silêncio absoluto aos cinco minutos que engana o ouvinte, dando a falsa impressão de que a música acabou.
Essa parceria prova que o Massive Attack continua sendo um ímã para colaboradores de peso. Desde o início da carreira, a banda tem o diferencial de tratar seus convidados não como simples participações especiais, mas como verdadeiros parceiros criativos. Foi assim quando a presença de Tracey Thorn moldou a identidade da faixa Protection em 1994, repetiu-se com Elizabeth Fraser no hit Teardrop de 1998, e acontece novamente agora com a voz inconfundível de Tom Waits.
A Força Inabalável de um Clássico
Enquanto o cenário britânico lida com reflexões densas sobre o presente, o pop rock americano volta os olhos para um de seus maiores trunfos nostálgicos. O Goo Goo Dolls acaba de disponibilizar em seu canal oficial no YouTube um novo lyric video para o sucesso mundial Iris. A novidade chama a atenção por incluir imagens inéditas registradas durante as gravações do aclamado clipe original.
Esse resgate estratégico acontece logo após a banda lançar a edição de luxo de A Boy Named Goo, celebrando o trigésimo aniversário de seu quinto álbum de estúdio. Lançada oficialmente em abril de 1998 pela Reprise Records, Iris é um fenômeno de resistência. A faixa está prestes a bater a marca impressionante de 5 bilhões de reproduções globais e continua marcando presença frequente no disputado TOP 200 do Spotify Brasil.
A balada poderosa, que mescla com maestria elementos de rock alternativo, pop rock e soft rock, nasceu sob encomenda. John Rzeznik, vocalista do Goo Goo Dolls, compôs a música especialmente para a trilha sonora de Cidade dos Anjos. A letra foi diretamente inspirada na trama do longa-metragem, capturando a essência de um anjo que decide abrir mão da própria imortalidade para vivenciar o amor na Terra.
O título da canção guarda curiosidades próprias. O nome “Iris” não é cantado em nenhum momento da letra, tampouco pertence a qualquer personagem da história de Hollywood. Rzeznik já revelou em entrevistas que a escolha aconteceu quase por acaso, depois que ele bateu o olho no nome da cantora Iris DeMent nas páginas de um jornal.
A faixa logo foi incluída no álbum Dizzy Up the Girl e transformou-se no maior hit comercial da história do grupo. Ela dominou as paradas musicais da Austrália, do Canadá e da Itália, além de quebrar recordes de vendas na Irlanda. O impacto nos Estados Unidos foi absoluto. Iris permaneceu no topo das rádios da Billboard por incríveis 18 semanas consecutivas, um feito histórico para a época. O videoclipe original, dirigido por Nancy Bardawil, eternizou a imagem da banda tocando no alto de um arranha-céu. Ali, eles observavam a vida da cidade através de um telescópio, em cenas que se intercalavam perfeitamente com a fotografia do filme que ajudou a transformar a música em um hino atemporal.