O tempo e o algoritmo: como o streaming reescreve a cronologia da música
Todo final de ano a nossa timeline é inundada pela mesma febre. Já virou um ritual sagrado das redes sociais abrir o Spotify Wrapped no final de novembro e atirar nos Stories do Instagram os cards coloridos expondo tudo o que a gente mais ouviu. O algoritmo nos entrega essa retrospectiva mastigada e, no Brasil, o ano de 2022 foi dominado por uma ausência que ainda ecoa forte: Marília Mendonça. O posto de artista mais ouvida foi dela, alavancado pelo estouro de “Mal Feito”, uma parceria com a dupla Hugo e Guilherme lançada pouco depois da sua morte, em novembro de 2021. É um daqueles recortes que mostram como a tecnologia ajuda a segurar a presença de alguém que já foi, eternizando o impacto na cultura pop.
Mas o aplicativo não vive só de compilar o nosso passado recente; ele também adora dar uns nós na nossa percepção de futuro. No começo do ano seguinte, a plataforma engatou uma ideia curiosa de criar uma espécie de cápsula do tempo musical. A dinâmica era até meio lúdica: você precisava estar com a versão mais atualizada do app até o dia 31 de janeiro e responder a um questionário meio existencial. O sistema perguntava coisas como qual música te lembrava alguém especial ou o que você precisava desesperadamente ouvir ao vivo naquele ano. Depois da curadoria feita, era só escolher um esconderijo virtual para guardar a sua playlist — dava para socar as faixas numa garrafa, num urso de pelúcia, numa máquina de chicletes, no bolso de uma calça jeans ou numa lancheira. A pegadinha é que essa lista ficava trancada a sete chaves até janeiro de 2024, quando um alerta finalmente liberaria a viagem nostálgica para os seus últimos doze meses.
Se o serviço consegue congelar nossas memórias de curto prazo pra gente consumir depois, a verdadeira anomalia acontece quando ele decide desenterrar a história profunda da música. Aproveitando a comemoração dos seus 20 anos, a empresa liberou um compilado de dados que prova que a forma como a gente consome som virou um loop maluco. Eles mapearam os maiores “comebacks” da história do streaming, aquelas faixas que, do nada, bateram seus picos absolutos de audiência décadas depois do lançamento original.
O caso de “Ain’t No Sunshine” é bizarro de tão gigante. O clássico absoluto do soul e blues do Bill Withers, que saiu no disco de estreia Just As I Am lá em 1971, já tinha sido um puta sucesso na sua época. Tinha cravado o 3º lugar na Billboard Hot 100, a 6ª posição na Hot R&B Songs e fechado aquele ano como o 23º maior single pop. Só que, num surto coletivo impulsionado pelo algoritmo, a faixa experimentou um renascimento brutal e atingiu seu pico de audições na plataforma em 2024, absurdos 53 anos depois de chegar ao mundo. Esse segundo fôlego histórico rendeu à música o segundo lugar na lista de maiores retornos da plataforma, numa coincidência feliz com o mesmo ano em que a faixa foi imortalizada no Registro Nacional de Gravações da Biblioteca do Congresso dos EUA por conta do seu peso cultural atemporal.
E a medalha de ouro nessa corrida contra o tempo ficou com “Fortunate Son”, do Creedence Clearwater Revival. O hino incontestável de 1969 atingiu seu ápice de execuções no Spotify também em 2024, espantosos 55 anos após o lançamento. É como se gerações inteiras estivessem redescobrindo essas pedradas simultaneamente, guiadas por recomendações que simplesmente ignoram a data de validade da arte.
A lista de ressurreições é um testamento de como a cronologia perdeu o sentido. Tem Queen com “Don’t Stop Me Now”, de 1978, batendo seu pico 41 anos depois, em 2019. Tem o atropelo cultural da Kate Bush com “Running Up That Hill”, que saiu de 1985 para dominar o mundo 37 anos mais tarde, em 2022. E até a choradeira noventista de “Iris”, hit de 1998 do Goo Goo Dolls, que foi encontrar seu auge de streams 27 anos depois, já em 2025. No fim das contas, a gente engarrafa o que ouve hoje num urso de pelúcia digital, chora as perdas recentes no topo das paradas e transforma os vinis de meio século atrás nas maiores trends de amanhã. A linha do tempo da música foi pro espaço.